quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Puerpério, esse misterioso

Quando Arthur nasceu, acreditava que o puerpério durava 40 dias. E lembro-me de chegar a questionar tal dado, porque para mim meses depois não fazia sentido dizer que o pós parto havia acabado. Independente de ter conseguido nomear o que sentia, eu sentia. E realmente tive nenhum apoio. A sociedade aparentemente não enxerga a mãe que nasceu, mas apenas o bebê. E a mãe passa a ser o instrumento responsável pela vida daquele pequeno ser.

De forma alguma estou negando a responsabilidade, necessidade, obviedade, naturalidade da mãe cuidar do filho. Mas quem cuida da mãe? Ou melhor, para que cuidar da mãe, uma adulta que tem a seu dispor, inclusive, um período de folga, digo, licença maternidade?

Mas comigo não era assim. Fisicamente era evidente que algo estava errado, mas o cansaço extremo, as olheiras, as vertigens eventuais que perduraram muito mais que 40 dias, tudo foi colocado na conta da amamentação, pelos outros e por mim.

Sorriso e olheiras
Como desmamar não era uma opção, no fundo me sentia uma pessoa fraca, apesar de forte. Forte em minhas convicções de maternagem e sobrevivência, afinal, sabia que era capaz e, de fato, era. Mas fraca pelas consequências de tanta força feita sem encontrar fonte que me revigorasse. Fraqueza que tantas vezes camuflei, novamente dos outros e de mim mesma.

Só fui começar entender tudo aquilo que passei muito tempo depois, lendo "A maternidade e o encontro com a própria sombra", onde Laura Gutman fala que, além da recuperação física dos órgãos, o puerpério iria além, talvez até aproximadamente os 9 meses de vida do bebê. Laura ressalta também que a mãe precisa ser cuidada e de certa forma até protegida no início da maternidade, para poder manter os cuidados e a simbiose saudável com o bebê, e com o enfrentamento da sombra da mãe que se manisfeta.

De repente, muita coisa passou a fazer sentido para mim. Faltou-me tal conhecimento, tal possibilidade. E sobrevivi. Mas sobreviver é muito pouco! Todos merecemos vida plena, não apenas sobrevivência. E reconhecendo minha necessidade e merecimento, meu medo de passar novamente pelo pós parto diminuiu muito, a ponto de engravidar novamente passar a ser um desejo real.

Entretanto, eu fiz uma distinção bem grande entre corpo e alma. Das fraquezas do corpo, continuei culpando o próprio. Até poucos dias, culpei quase exclusivamente a retenção placentária por todo o infortúnio físico que passei. Creditanto a isso também boa parte do cansaço e infortúnio emocional.

Eu e Naoli
Até que recentemente participei de um encontro com a parteira mexicana Naoli Vinaver que me fez repensar tudo isso. Naoli entende que após o parto, a mulher fica "aberta", de corpo e alma. Os ossos "amolecidos" durante a gestação, abriram-se para a passagem do bebê. Os órgãos abdominais deslocaram-se para o crescimento do útero. Os órgãos genitais abriram-se para o parto. A alma abriu-se para acolher e compreender o bebê e a maternidade. Conclui então que o puerpério é a fase que a mulher precisa para gradualmente ir retornando as coisas em seus lugares, os antigos ou novos que surgiram.

Meu puerpério
Assim, Naoli recomenda resguardo e repouso, principalmente nas primeiras semanas, para que o corpo se readeque a nova condição. A parteira acredita inclusive que problemas como incontinência urinária se relaciona à falta do repouso na fase inicial, impossibilitando que os órgãos se recuperem devidamente pelo esforço feito na fase de puerpério.

Por fim, enfatiza que não tem data fim para o puerpério, especialmente porque a alma está "aberta". Cada mulher tem seu tempo, podendo durar meses, até mesmo mais de um ano para que sinta-se pronta para realmente retomar a vida além da maternidade.

E novamente eu fui remexida por dentro, porque definitivamente o puerpério é muito mal resolvido para mim. E esse é um assunto tão pouco falado. Parece ser mais fácil fazer logo um diagnóstico talvez impreciso de depressão pós parto, entupir a mulher de remédios e continuar jogando as reais necessidades puerperais para baixo do tapete.

E ai, como a vida é cheia de coincidências (ou não), a Lia aparece com esse post maravilhoso, onde clama por uma nova espécie de atenção à puérpera. E mais uma vez se desnuda para mim que cuidados e atenção tanto especializada quanto social está muito aquém das necessidades da puérpera. Pelo contrário, temos sido cobradas, obrigadas inclusive medicamentosamente, a pular essa fase da vida.

Numa pesquisa rápida no Google, percebi que de fato o assunto é impreciso, como diz o texto do Wikipedia: "O momento do término do puerpério é impreciso, aceitando-se, em geral, que ele termina quando retorna a ovulação e a função reprodutiva da mulher."

E mesmo controverso, como no ABC da Saúde: "O período logo após o parto chama-se Puerpério, também conhecido como pós-parto ou resguardo. Dura em torno de 6 a 8 semanas e só termina com o retorno das menstruações."

Opa! Como assim dura de 6 a 8 semanas, mas só termina com o retorno da menstruação? A minha retornou quando Arthur tinha 9 meses e conheço gente que demora bem mais. A conta não bate!

Pelo menos reconhecem: "Em nenhuma outra fase da vida modificações físicas tão grandes acontecem em tão curto espaço de tempo. Todos os órgãos, principalmente os genitais, se recuperam das alterações ocorridas ao longo da gravidez e do parto e nessa fase se inicia a lactação. Além disso, importantes modificações psicológicas ocorrem."

Mas achei melhor a definição daqui sobre a duração do puerpério:

Puerpério imediato (1º ao 10º dia)
Puerpério tardio (10º ao 45º dia)
Puerpério remoto (após o 45º dia)

Espero que remoto não queira dizer raro. Que na verdade raro é que as mulheres tenham a oportunidade de viver realmente o puerpério.

15 comentários:

Katarina disse...

se eu falar que no dia do nascimento do joaquim já fui praticamnete lavar o banheiro, depois fiz minha "janta", que na verdade era um lanche e no dia seguinte logo cedo já fui ao quintal até para tirar coco do cachorro, vc acredita? =/
Próximo filho, se tiver, nascerá no hospital ou em um hotel! rsrs

Dani Garbellini disse...

Sabe, Kata, acho que tem quem passe bem por essa fase, mesmo limpando coco de cachorro no segundo dia. rs
Mas poderia ser ainda melhor, né?
Porém, para muitas mulheres, mas muitas mesmo, o puerpério é um momento delicado e vivido às escondidas, porque é feio sentir tais coisas quando tudo "deveria" ser alegria, felicidade plena com a chegada do filho.

Beijos!

Mariana - viciados em colo disse...

dani, tive muita sorte na minha primeira gravidez, vivi com plenitude, apoio do marido e da minha avó, além de uma empregada que fazia TODAS as tarefas domésticas, me dava chá e comidas bem feitas...

mas na segunda, com UTINeo, com uma reforma em andamento, quase piro... e ainda teve gente me pedindo para ter mais paciência e cuidado com alice, claro! mas sem me dar nenhuma estrutura para tanto! foi phoda! o pior é que só hoje eu sei que não era MÁ!

adorei o texto!

Larissa Carpintéro disse...

Dani, ótimo seu post... O que eu sinto muitas vezes é que durante a gestação as mulheres evitam falar deste assunto ou subestimam... No grupo, por exemplo, sempre temos encontros para falar sobre o puerpério e depois muitas mulheres dizem "ninguém me contou"... Vamos insistindo! Obrigada

Fabiola disse...

Dani,

Estou puerperando...aos 51 dias de nascimento da Maria. Nem sempre encontro espaço de fala, nem de escuta para MEUS anseios e angustias, mas vale dizer que entre um "coco de cachorro " e outro estamos sobrevivendo...rs... Um abraço !

Luciana Ribeiro disse...

Adorei esse post, estou te adicionando no meu blog. acabei de escrever um relato de amamentação e pós parto, até o presente momento, pois também acredito estar vivendo essa fase puerperal aos 4 meses da minha princesa. E é óbvio, a gente guarda pra gente ou desabafa num blog, pq parece que é pecado a gente se sentir fora do mundo e fora da sociedade quando se tem um bebê maravilhoso, risonho e cheio de saúde.
Passei por muitas cosias e superei sozinha. Se tenho orgulho? Tenho, mas me deixaram marcas que ainda não cicatrizaram, cansaços físicos e emocionais, e ainda não me recuperei. Minha maior vontade é engravidar e ter mais um bebê, mas ainda estou na fase em que pensar nisso me dá arrepios e calafrios. Como o mantra é "vai passar", sei que esse medo todo um dia vai embora, mas na hora certa.

entre lá no meu blog também e veja meu relato! beijos!

www.nalegriaenatristeza.blogspot.com

Deborah Trevizan disse...

Dani,
Muito bom encontrar teu texto. Venho me perguntando por que este pós parto tem sido tão mais difícil, arrastado, custoso do queos outros, ainda mais que neste tive o parto dos meus sonhos, não tive pontos, estou com o meu marido perto de mim, mas tudo parece tão difícil. Quero descansar, mas me sinto culpada às vezes, quero fazer as coisas, mas não tenho disposição...Não tenho vontade de receber visitas. Tenho vontade de chorar quando a Clara faz cocô ou quando um dos meninos me pede alguma coisa. Sei que pode-se somar o fator sem família para ajudar, mais dois fihos, sem empregada, mas quando lembro dos outros dois pós partos, tinha outras dificuldades que hoje não tenho. Mas, acho que a cada parto somos uma, vai saber se este parto dos sonhos, intenso, rápido não trouxe toda esta necessidade de descansar, né. E teve a infecção urinária absurda que tive no pós parto, que deve, certamente, ter um sentido... Enfim, vou "treler" o livro da Laura Gutman...
Bj

Paloma, a mãe disse...

Adorei o texto e tô gostando de ver os efeitos positivos da Laura Gutman sobre todas nós. Eu tive dois puerpérios, como vc sabe. O da Ciça foi muito, muito difícil, com todo mundo mais atrapalhando que ajudando, e as coisas dando errado. Foi tão trash que decidi que não ia avisar a ninguém sobre o TP, para não inventarem de ir à minha casa logo após o nascimento ad Clarice. Eu li a Laura Gutman na gravidez da Clarice, então já tinha consciência de muitas coisas da primeira vez que não queria que se repetissem.
Decretei (isso mesmo) que mesmo a família só poderia visitar na data que eu estipulasse - 1 mês depois seria o ideal, mas teve quem burlasse (tsc, tsc)... Mesmo não conseguindo tudo o que queria, eu consegui passar por esta fase com menos dificuldades emocionais que na primeira vez. Ainda assim, quando lembro da incompreensão em alguns momentos fico triste. TODOS, eu disse todos deveriam se informar mais sobre o puerpério. Não acho que seja fácil para ninguém, só que algumas têm mais estrutura e apoio que outras, só isso.
Por isso, mais uma vez, um grupo de mulheres seria mais que bem-vindo.
Beijos

Carolina disse...

pra mim foi um pouco mais de um ano na toca... agora com 1 ano e 4 meses que eu estou querendo ter algum momento meu, mas nem tanto assim.

e a menstruação nem veio ainda rs

e sim, é difícil, e ainda mais difícil é que o mundo só vê que vc é adulta e o bebê já está deixando de ser bebê e ficam em cima querendo que desgrudemos logo... isso tem me causado uns maus humores.....

Nine disse...

Dani, texto feito sob medida para mim, que estou no meu 14o. dia de puerpério. E vou te contar: cada um tem seus prós e contras. O primeiro foi muito difícil, muitas questões, muito cansaço. Este segundo está sendo igualmente dificil,ms por outros motivos. O cansaço de sempre, claro, mas as questões com minha filha estão me pegando. Está sendo muito difícil para mim me dividir entre os dois filhotes, choro, penso, repenso, morro de saudades do tempo em que eu era toalmente disponíel para a Ísis, mas entendo que isso mudou, só preciso me adaptar. E vc tem razão, ninguém liga para a mãe, nem fisicamente - não faltam mulheres dizendo que fizeram isso e aquilo e mais aquilo no resguardo, como se fossem mátires, quanto do ponto de vista psicológico. Quem entende a mente de uma mãe??

E ainda teve o parto, que abriu diversas feridas minhas...

Obrigada pelo carinho de sempre, pela mensagem no celular (adorei!) e por seus postos que li e reli durante a espera pelo Pedro.
Beijos, querida!
NIne

Lia disse...

A Laura Gutman fala em um puerpério de 2 anos, que é quando a criança começa a se desfundir emocionalmente de sua mãe. Até essa data, mãe e bebê são uma unidade (pesquise: Mamatoto), razão pela qual a mãe ainda não tem condições de voltar a ser o que era.
E eu acabei de ficar menstruada. Minha filha tem 5 meses, só mama no peito, e minha mais velha ainda mama. Acabou o puerpério de quem, cara pálida?

Dani Garbellini disse...

Lia, que eu me lembre a Laura fala que a simbiose mãe-bebê vai até os dois anos. Não?
Em todo caso, meu livro estava emprestado e não pude consultar antes de escrever, talvez tenha me confundido.
O livro voltou para minhas mãos ontem, vou reler e relembrar.
E também não acho que termina com a volta da menstruação, mas não mesmo! Aliás, não acho que tenha algo físico que defina o final, é um processo individual.

Barbara disse...

Cheguei aqui pelo blog da Lia e ja vou comentando :) Minha menstruacao so voltou aos 16 meses - e ai, o que isso quer dizer? :)
Interessantissimo o assunto, vou pesquisar material em ingles para as minhas amigas inglesas. Eu nunca tinha ouvido falar em nada disso, aqui todo mundo diagnostica depressao pos parto, mas essa explicacao parece tao melhor...
Eu acho que tive um puerperio legal - as maiores dificuldades foram o panico com a fragilidade do bebe, as mudancas de humor e acostumar com as mudancas na vida. Mas tive a sorte de nao precisar desgrudar do meu filho, e fazer tudo no nosso ritmo. (quase dois anos depois, o desgrude ainda vai bem aos poucos) Acho que isso me faz ter uma boa lembranca da epoca, mesmo com todas as dificuldades.

www.baxt.net/blog

Ari disse...

Adorei! Me identifiquei demais. Passei um tempão negando que não tava muito bem, o que deu azo a todos ao meu redor acharem que eu deveria estar reluzente e só, e depois de elaborar muito um parto sofrido concluí que tive depressão pos parto. Hoje, nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Tive um puerpério que durou até 1 ano e meio, no mínimo. Somente a partir de então, comecei a sonhar com um novo bebê, que já queria desde sempre, a senti-lo mexendo em meu ventre. Comecei a preparar meu corpo, mente e espírito. E cá estou, como você, esperando o segundinho. Detalhe, menstruei aos 60 dias pós parto: ninguém merece!

Edna Corsi disse...

Olá boa tarde!

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