Faltavam poucos dias para o Natal. Fui com meus amigos a um barzinho. Era um grupo de amigos, jovens, homens e mulheres. Estávamos sempre juntos. Como era um grupo grande, obvimamente tinha mais afinidade com uns que com outros, mas todos eram próximos.
Naquela noite, um dos amigos começou com umas gracinhas para o meu lado, mas eu levei na brincadeira, até porque sabia que era o jeito dele mesmo com as meninas.
Na hora de ir embora, sem que eu percebesse, ele armou um jeito de ficar sozinho comigo. Então, me levou para uma rua escura e tentou me beijar. Eu não quis, disse que ele era apenas meu amigo, que estava confundindo as coisas. Sinceramente achei que pararia por ali, afinal, ele era um amigo, havia bebido, mas não estava super bebado, tinha total condições de discernimento, assim como eu.
Porém, não foi o que aconteceu. Ele me forçou contra uma parede, abriu as calças e começou a tentar abrir a minha. Eu resisti, pedi para parar, mas não tinha forças suficientes para empurrá-lo para longe. Mas ele não parou. Daí bateu o pânico e gritei.
Quando gritei ele parou e, acreditem, tentou me convencer que eu queria sim. Diante de minha recusa e ameaça que iria gritar novamente, graças a Deus ele desistiu e saímos de lá.
Para meu desespero, o restante dos amigos tinham desaparecido. Inclusive a amiga em cuja casa eu passaria a noite e onde encontrava-se a minha moto. Era tarde da noite e minha casa era longe, cidade pequena, nem táxi à noite tem. Na época o celular ainda não era popular (eu tinha uns 20 anos), não tinha quem chamar, me sentia amedrontada e sem conseguia pensar no que fazer. Então, tive que aceitar a oferta do agressor em me levar para casa.
Fiquei me sentindo super mal, claro, mas não tive coragem de contar a ninguém o que tinha acontecido. Alguns amigos acharam que a gente tinha ficado, pois sumimos juntos. Eu neguei, mas disse apenas que eu não quis. E tenho a sensação que vários não acreditaram em mim, o que me fez sentir ainda pior.
Aquele Natal perdeu a graça para mim. Estava triste, amedrontada, me sentindo suja, culpada, pensando o que eu fizera de errado para provocar aquela situação. Por mais que eu soubesse racionalmente que não tinha culpa, acredito que é uma questão cultural, não sei explicar, mas meu sentimento era de me culpar e isso me dava ainda mais raiva.
Aos poucos comecei a me afastar de alguns amigos ou eventos em que ele estaria. Sentia vontade de contar a todos, mas não conseguia, não me achava no direito de fazer isso.
Passado um tempo, num show, conheci uma garota e ficamos amigas. Um dia ela foi comigo a um local onde encontraria outros amigos, eu não sabia que ele estaria lá, mas estava. Quando chegamos e ela o viu, não quis ficar. Depois me contou que haviam estudado na mesma escola, começado uma amizade e, aproveitando-se disso, ele havia tentado forçá-la a ficar com ele. Assim como eu, ela não havia contado a ninguém, mas comigo obviamente rolou a empatia e contamos uma para outra.
A partir daquele momento eu me senti forte. A culpa passou, pois consegui enxergar claramente que eu não havia feito nada errado, ele era realmente um escroto.
Por que venho contar isso agora aqui no blog? Porque ontem, devido a discussão da semana gerada pelo episódio do BBB, soube de mais dois casos próximos de pessoas que sofreram violência (assédio de parentes), então a pessoa comentou que parecia uma coisa recorrente em sua família.
Naquele momento ficou claro para mim, não era em sua família, era em toda sociedade, mas que não fazemos idéia da dimensão disso, pois as vítimas não contam e fica parecendo que são casos isolados quando na verdade não são, infelizmente, é muito mais comum que se pensa. E normalmente os agressores não são estranhos, mas conhecidos, principalmente membros da família, o que dificulta ainda mais lidar emocionalmente e expor os fatos.
Eu realmente entendo que as mulheres e crianças vítimas de violência sexual não se exponham, é muito mais difícil, complexo e perigoso que se imagina. Porém a falta de conhecimento do assunto está perpetuando essa violência e isso é extremamente grave.
É por mim, pelos meus filhos, pelas pessoas que amo, pela sociedade em que vivo, que venho contar essa história e pedir, mesmo implorar, que o assunto seja tratado com a devida seriedade e possamos todos, especialmente mulheres e crianças, as maiores vítimas desses crimes, ter proteção, apoio e respeito incondicional.
4 comentários:
=(
É meu maior medo, agora multiplicado por mil, porque tenho um filho...
Dani, e você soube desse cara novamente?
Soube sim, Bekka, como disse, era um amigo em comum com muitos amigos. Mas agora não moro mais na cidade e estou sem notícias faz tempo. E nem quero saber!
Oi Dani! Eu acreditei sim...
Foi uma saia justa por causa da situação, amigos! Mas nunca deixei de acreditar em você!
E graças a Deus, passou!
Lembre de coisas bonitas que te tragam alegria! E não disso...
Sei que o assunto levou a isso e a revolta também!
Mas o julgamento é Divino e não humano! Aqui se faz, aqui se paga!
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