terça-feira, 5 de julho de 2011

O desmame


Em setembro/2010, aos 2 anos e 4 meses, ocorreu o desmame noturno. Após algumas noites sem acordar para mamar, conversei com Arthur e expliquei que a partir de então ele mamaria para dormir e só mamaria novamente quando amanhecesse. Quando acordava à noite, me deitava com ele que logo dormia novamente. Chorou um pouco algumas vezes e logo se acostumou, mas ao primeiro raio de sol, lá vinha ele mamar...

Em outubro, com 2 anos e 5 meses, com delicadeza e conversa, gradualmente, deixamos de praticar a livre demanda. Houve alguns dias de choro, mas sem maiores dificuldades, consolidou-se três amamentações diárias: manhã, tarde e noite, sempre os dois peitos em cada mamada, com duração média de meia hora.

A partir de então, eventualmente pulava a mamada da tarde, principalmente quando estávamos fora de casa e ele esquecia, me levando a estabelecer que em passeios ele não mamaria mais.

Em dezembro, sem conseguir mais evoluções e muitas vezes sem vontade de amamentar, decidi que era hora de tomar uma atitude e retirar mais uma mamada. Dessa vez, entretanto, o processo não foi tranquilo. Buscava conversar com ele, explicar que estava crescendo, já era um menino grande.

Arthur que começou o desfralde em outubro e consolidou em novembro, voltou a deixar escapar a maioria dos xixis, chegando a verbalizar nesses momentos e também nas conversas sobre desmame, que era bebê, que não era grande. Opa! Sinal de alerta aceso. Esse papo de crescer, menino grande não estava funcionando, pelo contrário. E mais, parecia que Arthur não estava tão pronto assim para continuar o desmame quanto eu pensava. E agora?

Fiquei muito indecisa e culpada. Culpada por não estar mais conseguindo amamentar, quando aparentemente meu filho ainda precisava. Indecisa por não saber se seguia com o martírio que se transformava amamentar ou se seguia com o processo. Mas sabia que ficar parada naquele ponto não era possível, então, conversei com o marido e abandonamos totalmente a conversa sobre ser menino grande. Finalmente também marquei um atendimento com psicóloga-doula-especialista em amamentação, que orienta também sobre desmame.

Na noite anterior à consulta, por conta própria, Arthur não quis mamar para dormir, pediu apenas que contasse histórinha. Pareceu-me um sinal...

Na consulta, conversei sobre minhas angústias, refletimos juntas e sai com mais tranquilidade em prosseguir com o desmame. Concluímos que realmente deveria focar a conversa do desmame como minha necessidade e não no crescimento dele. Passei a explicar que o leite da mamãe estava diminuindo, acabando, que meu peito às vezes estava doendo, machucando, que estava cansada.

Estabeleci como meta, naquele momento, que Arthur tivesse totalmente desmamado até maio, quando completaria três anos. E escrevi aqui sobre o processo de desmame.

Pensei em começar tirando a mamada antes de dormir, pois era a mamada mais ruim, em que às vezes entrávamos em conflito, pois o leite era pouco, Arthur ficava apertando para sair mais, doia, eu cansada, irritada. Horrível.

Esperei passar o final de semana do Natal e, na segunda-feira antes de dormir, conversei com ele que era uma mamada de despedida, pois a partir do dia seguinte, ele não mamaria mais para dormir. Ele questionou, perguntou por que, reclamou... Eu fui explicando e ele me olhava fixo, com um olhar triste, desolado. Que difícil! Papai estava por perto e mal se aguentou.

Minhas férias de 10 dias haviam acabado e eu voltaria a trabalhar no dia seguinte. Como às vezes acontece, saí para trabalhar e Arthur ainda dormia. Papai contou que ele chorou uns 5 minutos, chamando por mim, mas logo se acalmou. Repensei que era melhor tirar primeiro a mamada da manhã, que era bem mais gostosa que a noturna, porém era a mais complicada para nossa rotina, às vezes era mesmo pulada por isso, não seria legal se acontecesse dele ficar sem mamar logo de cara à noite e depois pela manhã.

Terça-feira à noite relembrei que pararíamos com uma mamada, portanto no dia seguinte, quando ele acordasse, não teria mama. Ele com sono, mostrou desagrado, mas não falou nada, mamou e dormiu.

Quarta-feira, acordou cedo me chamando. Fui até seu quarto e pediu mama. Lembrei-lhe do combinado e ele chorou, ficou bravo, esperneou, pediu, questionou. Perguntei se queria leite, pão e ele respondia “não, quero mama”. Em poucos minutos se acalmou. Ficamos deitados em sua cama, ele às vezes me olhava profundamente, um olhar ora bravo, ora confuso, pedindo compreensão. Fui falando que ele era meu filhinho, sempre seria, que estaria sempre com ele. Passados mais alguns minutos, falou que queria leite. Ofereci colo e logo ele estava normalmente brincando e tomando seu café da manhã.

Enquanto estávamos na cama, senti meus seios se encherem como há tempos não sentia. De manhã e à tarde continuo tendo bastante leite quando ele mama, mas raramente produzo sem estímulo. Ah, mas eu descansada, com meu filhote me olhando daquele jeito e pedindo mama, o estímulo estava lá. Nesses momentos percebo o social se sobrepondo ao natural. Obviamente o processo natural levaria à retirada da mamada da noite, mas a necessidade de ir cedo para o trabalho levou a outra escolha, talvez não a melhor de todas, mas a melhor possível nesse contexto. E nesse primeiro dia nos saímos muito bem.

Demorou uns 10 dias para a adaptação plena a não mamar mais pela manhã. Foi a mais difícil de todas, mas deu tudo certo. Acredito que por estar em férias escolares e mais próximo de mim e da vovó, que ficou em nossa casa com ele, facilitou o acolhimento emocional da perda da mamada matinal.

Logo começaram as aulas e definitivamente período de adaptação escolar não é a melhor hora para dar continuidade ao processo. Além disso, duas mamadas se tornavam pouca cansativas para mim também. Fiquei até em dúvida se tirava mais uma mamada ou deixava as coisas acontecerem.

Nesse estágio, as mamadas noturnas foram se encurtando e espaçando. Nesse horário, devido ao cansaço, a produção de leite é naturalmente menor e, com apenas duas mamadas diárias, também diminuiu a produção, logo, às vezes era muito dolorido e diante do esforço pouco recompensado em tentar sugar forte para sair leite, Arthur começou a mamar apenas um peito, poucos minutos e depois pedia para irmos deitar na cama. Aos poucos, eventualmente, nem mesmo mamava. Mais um indício que estava na hora de deixar as coisas acontecerem, sem precisar decretar um dia para acabar, como tinha sido com a mamada matinal.

Arthur foi mamando alguns dias mais, outros menos, ficava uns dias sem mamar e assim passou-se meses, até que quando me dei conta, ele já não mamava para dormir, ficando apenas a mamada da tarde, quando ele chegava da escola e, aos finais de semana, antes do descanso da tarde.

Foi bom deixar as coisas acontecerem, e assim permaneceu. Passado mais alguns meses, Arthur começou a se desinteressar pela mamada da tarde, às vezes mamava apenas um peito e não os dois como era costume, as mamadas foram ficando mais curtas, depois ele pulava alguns dias até que no dia 29 de junho de 2011, com três anos, 01 mês e 13 dias, ele mamou pela última vez.

Hoje, 05 de julho, é o sexto dia que ele não mama. Ontem voltando da escola, ele falou: “mamãe, eu não quero mamar quando chegar em casa”. Tá bom, meu filho.

Caso ele volte a pedir para mamar nos próximos dias, pretendo atender, até que ele esteja totalmente seguro do desmame, mas não acho que acontecerá.

Nesse momento, sinto saudade e alegria. Saudade de amamentar meu bebê, meu menino, e alegria por saber que tivemos uma história linda de amamentação, quase inacreditável para quem começou sem produzir leite, precisou praticar translactação na primeira semana de vida e passou o primeiro mês como mãe incerta de sua capacidade de nutrir o filho.

Arthur mamou exclusivamente por 6 meses, nunca conheceu mamadeira, só começou a tomar leite de vaca com 1 ano e 10 meses e mamou até os três anos de idade. Final feliz.

14 comentários:

aprendendo com o Theo disse...

Nossa que lindo esse depoimento...de verdade me fez chorar...ok ok ...mamães com hormônios a flor da pele....mas esse depoimento me fez refletir muito...espero que eu consiga também uma pó tinha do que vc conseguiu....estou seguindo para trocar experiências...bjus

Mariana - viciados em colo disse...

ai, que coisa mais difícil!
alice desmamou sozinha e eu não tenho a mínima ideia de como vou fazer com arthur...
beijoca

Lia disse...

Oi, Dani,
Que linda história! Aqui eu espero que o desmame seja mais fácil, mas é imprevisível. Gostei muito dessa orientação de focar em você, nas suas necessidades, e não nessa história de "você já é grande". E se ele não se sente grande?
Aqui Emília está mamando só 2x por dia (ela está com 18 meses), e às vezes pede pra mamar mais uma vez nos fins de semana. Quando nascer o segundo, não sei como vai ser. Por enquanto, estamos bem.
Eu tenho negado quando ela pede pra mamar perto da hora de dormir, porque ela acaba cochilando no peito e depois bagunça todos os horários dela. Nego também quando ela pede pra mamar de novo depois de meia hora, uma hora.
Também às vezes dou uma insistida pra ela terminar a mamada, porque tem vez que ela quer mamar pra sempre. Eu digo que ela já mamou bastante e que o peito da mamãe está ficando dodói. Ela costuma entender.
Mas continua sendo um momento delicioso, que certamente vai se estender pelo menos até os dois anos!
Beijos e obrigada por compartilhar a experiência.

Brenda Staut disse...

Dani,
Parabéns!
Adorei seu relato.
Bjs

Sonica disse...

Realmente uma linda história! Que bom que vc conseguiu registrar, e assim um dia ele vai ler e se emocionar, como nós, sua leitoras nos emocionamos hj...
Beijinhos,

Katarina disse...

Dani, legal que conseguiram com tranquilidade!!
li seu relato em várias partes, dias diferentes..hehe Correria,mas vim comentar! parabéns a vcs! vejo muitas pessoas desmamando na marra, tão triste... tão brutal...
bjo

Dani Garbellini disse...

Queridas, obrigada pelos comentários.
Fiquei surpresa de acharem bonito ou emocionante, porque está super detalhado, nada romantizado.
Eu comecei a escrever esse relato em dezembro, a cada etapa fui escrevendo, para não esquecer. Concluí ontem.
E talvez role um epílogo daqui um tempo...
Beijos!

Anna disse...

linda história de amor.

Fabiana disse...

Que relato emocionante!! Lindo!
Beijos
Fabiana
http://2-ao-quadrado.blogspot.com

Nine disse...

Oi Dani! Voltando aos poucos...não pude deixar de comentar nesse seu relato! Lindo! Gostaria de amamentar o segundo por mais de 9 meses...vamos ver!

Beijos,
NIne

Paloma, a mãe disse...

Dani, que linda história! Demorei dias para ler, pois quis clicar em todos os links. Estava sem tempo de comentar, sempre com uma mamadora no colo, mas agora fiz questão de vir para te parabenizar.
Obrigada por dividir sua história! Não gosto nem de pensar em desmame por ora, mas, quando for a minha vez, venho aqui te reler.
Beijos

Ana Paula - Journal de Béatrice disse...

Dani,
Li (reli) todos os seus posts de desmame do Arthur. Lembro que acompanhei (so não comentei) pois estava me fortalecendo com informações, pois estava a caminho do desmame. E é bem verdade, não é um processo que acontece da noite para o dia, é gradudal e tem que haver preparo de ambas as partes, nos como mães e dos filhotes.

Assim como o Arthur, Béatrice sentiu a retirada da mamada noturna (foi mais dificil que a mamada matinal) e foi choro, explicações e um periodo bem cansativo. Mas a partir dai seu sono melhorou e, aos poucos (bem devagar) as outras mamadas tb foram sendo suprimidas.

E mais uma etapa cumprida e obrigada por compartilhar o relato de desmame. Tenho certeza que ajudara outras mães, assim como foi comigo.

Beijos : )

Bianca Lanu disse...

Ué... postei e não vi o comentário e nem se será autorizado por vc... Voltei p/ testar, rs.

Bianca Lanu disse...

Bom... Seguimos neste processo tb, e sei q levará um bom tempo, por isso vamos c/ calma e s/ pressa.
Novos desafios surgem cf. as crias crescem, o q tb nos faz crescer!