sábado, 7 de junho de 2008

História do nascimento do reizinho

GRAVIDEZ

Planejando engravidar, busquei um médico que não fosse adepto da cesárea eletiva, como muitos que eu conhecia. Como não consegui nenhuma boa indicação, comecei a pesquisar também na internet. Foi assim que descobri o parto natural e me encantei. Definitivamente eu queria mais que um parto normal cheio de intervenções ou uma indicação mal feita de cesárea.

Descobri um médico aqui em Campinas, que atende pelo convênio, que divulgava ser adepto do parto natural, humanizado, mas foi uma grande decepção, como contei aqui. Busquei muito, mas não encontrei nenhum outro médico em Campinas que fizesse um parto natural.

Engravidei e comecei meu pré-natal com uma boa médica, mas a opção era um parto normal sujeito às intervenções e procedimentos rotineiros, podendo acabar numa cesárea, até porque quanto mais intervenções, maiores as chances do proceso natural do nascimento se perder.

Comecei a participar da materna_sp, uma lista de discussões que reúne gestantes, mães recentes e profissionais em torno dos temas ligados ao ciclo da gravidez, parto e pós-parto e defende o parto normal e o aleitamento materno. Sabia que minha base era sólida, mas percebi que precisaria bem mais que isso para ter um parto natural.

Porém não desisti. Pesquisei, conheci pessoas, busquei muito e consegui uma equipe que faria meu parto natural.

A partir de então, continuei meu pré-natal tradicional com a médica e passei a ser acompanhada também pela equipe de São Paulo que faria meu parto. Pois é, fiz pré-natal com três ótimas profissionais, todos os exames necessários, um excelente curso de preparação para o parto no GAMA junto com o Emiliano, enfim, acabei tendo um acompanhamnto pré-natal muito superior ao da maioria das gestantes.

Cada vez mais, mulheres que foram sobretudo feridas ou frustradas pelos partos sem respeito começam a procurar outra coisa. Algumas preferem ter o filho em casa, pensado que é o melhor 'alhures' possível. Outras procuraram pequenas maternidades onde existe calor humano. Mas todas sabem que esse caminho para um nascimento mais livre, mais responsável, precisa ser descoberto pela própria interessada. Não com um machado, mas com confiança. Confiança em si, no bebê, no meio que a cerca.” (Bertherat, Marie. Quando o corpo consente, Martins Fontes, 1997.)


A ESPERA

Quando estava para completar 39 semanas de gravidez, entrei em licença maternidade. Aproveitei para colocar tudo o que faltava em ordem e descansar. Porém, não esperava que o Arthur só nasceria aos 45 do segundo tempo, utilizando o jargão futebolístico. Após completar 40 semanas, o acompanhamento se intensificou, vários ultra-sons, monitorizações, consultas a fim de garantir que estava tudo normal e podíamos continuar esperando entrar em trabalho de parto. Graças a Deus, tudo continuava perfeitamente bem, apenas a ansiedade aumentava.

Com quase 42 semanas, sem qualquer sinal do meu corpo, elaboramos um plano B, caso precisasse induzir o parto. Ao mesmo tempo, fiz o que pude para ajudar a engrenar o trabalho de parto: homeopatia, chás, caminhadas, orações.

No dia 14 de maio, quarta-feira, fui caminhar com uma amiga também grávida na lagoa em Barão Geraldo. Caminhamos, conversamos e fui para casa bem disposta. Às 21:30 aproximadamente, senti uma dor nas costas que irradiou para a barriga. Era a primeira contração.

Durante toda a noite e dia seguinte tive contrações irregulares, que foram se intensificando. Fui acompanhando as contrações, sempre em contato com a equipe por telefone. Era a fase latente do trabalho de parto. No final da tarde, o primeiro exame de toque acusou de 2 para 3 centímetros de dilatação.


TRABALHO DE PARTO

Chegou a noite e estava realmente em trabalho de parto, ainda que minhas contrações tenham permanecido irregulares. Para aliviar a dor das contrações, fiquei bastante no chuveiro, recebi massagens, bolsa de água quente, dancei (balançar os quadris é muito bom!) e muitas vezes sentei no vaso sanitário. Nos intervalos das contrações, buscava descansar. O que mais ajudava, era o apoio, incentivo e carinho da equipe e do Emiliano, super pai e marido.

E assim o tempo foi passando. Por volta da meia-noite, outro exame de toque: 7 centímetros de dilatação. Para ajudar na dilatação e o bebê descer, subi e desci escadas também.

Ah! E o bebê continuava mexendo bastante na barriga!

Encheram a banheira e fui para lá. Nesse período os intervalos pareciam cada vez menores e as contrações mais fortes, eu me sentia fora da realidade, sem noção de tempo, doía bastante e lembro que disse: o que fui inventar? Mas já emendei com: não vou falar isso. E não falei mais, afinal, sabia que era exatamente assim que eu queria meu parto, mas quando a contração vinha forte, parecia que não ia aguentar.

A equipe se alternava me apoiando, massageando, dizendo palavras de apoio. O Emiliano ficou comigo o tempo todo, sentia muita força vinda dele, me encorajando, querendo dividir comigo aquele momento, aliviar minha dor. Lembro deles dizendo para eu deixar o bebê vir, para dizer ao Arthur para nascer.

Então, passei a descansar deitada com a barriga para cima nos intervalos e, quando a contração vinha, virava e fica de joelhos reclinada e repetia como num mantra: não vai doer, não vai doer. Lembro que pensava que era para o Arthur nascer, mas não sei se apenas pensava ou se dizia. Isso ajudou muito a aguentar e continuar.

Outro toque: 8 centímetros. Fiquei decepcionada. Tanta dor, tanto tempo e evoluira apenas um centímetro? Mas logo as contrações sumiram com esse pensamento da minha cabeça.

Comecei a sentir frio e quis sair da banheira.

Nos intervalos eu ficava na cama, queria muito descansar. Nas contrações, corria para a privada. Numa dessas vezes, saiu o tampão. Um bom tempo depois, ouvi um ploc ao chegar no banheiro e correu líquido. Emiliano estava comigo. A bolsa tinha estourado. Líquido clarinho, nenhum sinal de mecônio. Checaram e o coração do bebê continuava bem.

Depois de mais um tempo de contrações, pedi para voltar para a banheira. Foram aquecer a água e antes de entrar, outro toque: dilatação total, mas o bebê estava alto, a cabecinha fora de posição.

De volta à banheira, as contrações continuavam. Agora o bebê precisava acertar a posição da cabeça e descer para nascer. Lembrei de um relato de parto, em que demorou seis horas até que isso acontecesse. Fiquei um pouco nervosa, mas estava confiante. Explicaram que eu poderia fazer uma manobra, em que teria que me pendurar. Com a ajuda de um lençol, pude fazer a manobra sem sair da banheira. Doia muito, mas busquei toda força que encontrei e pedi muito a Deus para conseguir. Acho que foram quatro vezes e deu certo, a cabecinha desceu, estava lá, eu coloquei o dedo e senti. Que emoção!


PARTO

Como era bom sentir que estava conseguindo, tudo estava dando certo, agora faltava muito pouco para ter meu filho nos braços. Chegou a hora do expulsivo. Sentia a tal vontade de evacuar e tive um pouco de medo de fazer força, mas não falei a ninguém. Novamente não quis ficar de joelhos ou cócoras, era desconfortável.

O Emiliano me segurou por trás, coloquei muita força nas pernas e erguia os quadris a cada vez que vinha a vontade de fazer força. Então veio aquela sensação de que ia rachar ao meio e o famoso círculo de fogo. O cabelinho dele apareceu e voltou, o Emiliano pode ver. Coloquei a mão e senti, que delícia. Outra vez a vontade de fazer força, ele vinha chegando, só pensava nisso: era hora dele nascer. Senti que uma parte da cabecinha ficou para fora e uma dor como se algo estivesse mordendo meu períneo. M disse que da próxima vez que sentisse vontade de fazer força, era para não fazer e soprar. Foi difícil, muito difícil de conter. E então saiu a cabecinha, eu gritei muito. Mais uma vez e passou o corpinho. Nasceu!

M pegou o bebê e o colocou direto nos meus braços, não sei se foram segundos ou minutos, ouvi falarem sobre hora, a equipe se abraçando, Emiliano tirando fotos. Mas tudo isso acontecia ao meu redor e era como se nada acontecesse, engraçado como a dor se transforma em prazer intenso. Arthur, meu filho, abriu os olhinhos e fixou seu olhar no meu, profundo, senti uma paixão avassaladora me invadir. Chorou um pouquinho. Pedi ao Emiliano que viesse para junto de nós, era nosso momento. Alguém pegou a câmera, ele veio, feliz, emocionado. Quando o cordão parou de pulsar, papai cortou. Ficamos os três ali, pela primeira vez, nossa nova família, não mais um casal, mas pai, mãe e filho que nasciam naquela sexta-feira, dia 16 de maio de 2008, às 6:39 da manhã, o dia mais feliz e intenso da minha vida.


ARTHUR

Pesando 3,650Kg, de forma natural após 42 semanas exatas de gestação, apgar 9 e 10, nasceu nosso reizinho. Com cabelinhos e parecido com o pai, mamou assim que foi colocado no peito, para alegria da mamãe. Saudável, lindo e fofo, encheu nossa vida de alegria. Uma benção de Deus!


AGRADECIMENTOS

M, minha parteira querida, que com sua ternura me ajudou tornar possível esse sonho.

P, com quem sinto um elo inquebrável por sua competência e bravura ao cuidar de mim.

AP, pela dedicação irrestrita, especialmente para que eu conseguisse amamentar.

Minha mãe, que cuidou de nós com tanto amor, carinho e doação.

Maternas, pelos exemplos, pelas palavras de apoio, pelas dúvidas tiradas, pela amizade. Sem vocês nada disso teria acontecido.

Deus, que nos abençoou e concedeu a graça da gravidez, do parto, das superações e, principalmente, por ter me concedido a graça de um filho saudável e lindo.

Emiliano, meu amor, porque cada linha, cada palavra, cada entrelinha desta história não é minha, é nossa. Dividiu tudo que podia comigo e, quando não podia, me deu sua mão. O Arthur é realmente fruto do nosso amor.

Arthur, por existir, simples assim.


Não quis delegar a outros a responsabilidade do parto. Eu dei a luz Arthur. Eu pari meu filho


10 comentários:

Fer Paro disse...

Emocionada até a alma! Assim que eu me sinto agora depois de ler esse relato tão intenso e apaixonante! Estou sem palavras, e muito feliz por vcs! Parabéns à familia linda! Bjs

Kathy disse...

Muito lindo e emocionante!
Parabéns!!!

Ibel/Lia disse...

Estava a ler e a rever o meu parto, há vinte e seis anos atrás, precisamente no mesmo dia do seu Arthur.
Senti de novo tudo que você relata tão bem!Também eu escrevi a minha história e dei-a a conhecer à minha filha quando ela fez dezoito anos. Li-a para os convidados e o pai disse umas palavras comovedoras.
Que Deus vos proteja como a mim me protejeu e me deitou a benção.

Camila disse...

Que lindo!!! Bem vindo, Arthur... ^^

Midian Fontana disse...

Impossível ler e não se emocionar, principalmente quando se esta prestes a viver uma emoção parecida.
Parabéns Dani não só pelo nascimento do Arthur mas pela força e determinação de não desistir de seu sonho, mesmo quando parecia que não ia dar certo. Parabéns mesmo!! Deus abençõe essa linda familia. Amém

Anônimo disse...

impossivel ler as tuas palavras e nao esboçar um sorriso puro de alegria por esse amor! pq é o amor q comanda a vida...sempre!obrigada por este momento bonito de testemunho!Toda a felicidade do mundo para voces!
Daniela(portugal)
verdusca@hotmail.com

Marilyn disse...

10 meses se passaram, Dani vc. acredita? Só agora parei pra ler o relato do Arthur novamente. Como não se emocionar com tamanha entrega? Difícil. Toda vez que eu leio eu me desabo em lágrimas. Antes do nascimento da Sofia eu sempre parava pra pensar se eu seria tão capaz e forte como você pra colocá-la no mundo... Agora eu me lebro exatamente dos 5 minutos finais do meu trabalho de parto que foi lindo e muito sofrido, mas um sofrimento bom, louco isso!!!!
EU CONSEGUI... Dani, esse foi o primeiro relato que eu li na minha vida, na busca do meu parto normal, e devo em primeiro lugar à sua ajuda e às suas palavras positivas pra que ele acontecesse! Um super bj nessa família maravilhosa...

Mamãe caprichosa disse...

Oi Dani! Parabéns!!
Eu sempre me considerei forte por ter tido os meus três pequenos através de parto normal. Depois que li seu relato, percebi que vc é que é uma heroína!!!
Emocionante o seu relato!!!
Bjs Carla de Americana, pertinho de Campinas!!
Bjs
http://mamaecaprichosa.blogspot.com

Nine disse...

Oi Dani! Ainda não tinha lido seu relato e como estou na fase das pesquisas, cá estou eu, rsrsrs.

Lindo esse momento seu e da sua família, que privilégio poder começar a vida familiar assim, de forma respeitosa, amorosa e ativa!

Beijos,
Nine

Paloma, a mãe disse...

Lindo, lindo, lindo, Dani, parabéns por tudo!
Beijos